Complicada e perfeitinha: uma Web de fases

Apesar de nos encontrarmos inseridos numa realidade na qual a presença da tecnologia possui um papel deveras relevante perante a sociedade, devemos levar em consideração que o fato de que, nem sempre, estivemos classificados neste patamar de modernização tão avançado.

Na plataforma referente à rede mundial de computadores, nossa conhecida Web – base que nos vêm à mente ao tratar do assunto do progresso tecnológico –, diversas atualizações foram ocorridas para que chegássemos ao estado atual, de constante interação e fácil acesso do público aos produtos cibernéticos. Diante disso, à medida que aprofundamos estudos sobre a área, nos deparamos com as diversas etapas e versões do universo on-line: Web 1.0, 2.0 e 3.0.

Web 1.0 refere-se, intrinsecamente, aos primórdios da vida na Internet no cotidiano da população. Apenas sites institucionais eram predominantes e, no sentido literal, não havia usuários. O internauta da época era completamente passivo, pois não havia interação da parte do cidadão com o que a Internet oferecia, ou seja, não existia participação do público na elaboração de conteúdos.

Tempos depois, por volta dos anos 2000, surgiu a ideia de Web 2.0 – termo criado pelo especialista Tim O’Reilly –, que tinha como principal objetivo aniquilar as dificuldades apresentadas na primeira etapa, tais como a não troca de informações. Era o início do que classificamos como web participativa, com explosão de conteúdos produzidos pelos próprios internautas e popularização cibernética ao redor do mundo. Mais recentemente, fomos teoricamente inseridos na era da Web 3.0, uma internet cada pautada na inteligência artificial devido à sua eficiência esplendorosa. Esta classificação abrange o constante uso de smartphones e aplicativos que viabilizam nossa constante ligação com o mundo virtual.

Contudo, John Markoff, criador do termo, afirma que ainda não podemos nos considerar completamente a par da Web 3.0, pois ainda não há total concretização dos ideais que envolvem inteligência artificial. Para o estudioso, a fase só começará, definitivamente, quando pudermos igualar humanos e máquinas em uma mesma realidade. Analisando pelo lado crítico e tomando como base a presença da tecnologia em nossas vidas nos dias atuais, podemos considerar esse um futuro bastante próximo, devido a constante e intensa presença de aplicativos e demais softwares na vida dos internautas. A realidade que constitui a relação entre homem e máquina está sendo construída hoje e terá sua ascendência em breve.

Fichamento: “A Cauda Longa”, de Chris Anderson

“Se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos”, afirma Chris Anderson no primeiro capítulo de seu escrito, “A Cauda Longa”, remetendo a discussão à popularização daqueles que antes eram considerados produtos culturais desconhecidos, de pequeno alcance e baixo interesse à sociedade. A partir do crescimento do mercado na internet e consequente escassez de lojas de varejo físicas, cada vez mais consumidores vem buscando aumentar os seus níveis de conhecimento sobre produções antigamente julgadas como de dificilmente acessíveis ou, em outras palavras, pertencentes à categoria de entretenimento obscuro.

Devido às necessidades capitalistas sociais, fica claro que, para obter o status de uma produção ou produto bem-sucedido, é preciso atrair um grande número de pessoas ao resultado final. É um requisito necessário para cobrir os custos de elaboração e estocagem do material formado que, em tempos passados, esteve muito mais presente na vida dos varejistas. Por que investir em conteúdos incapazes de gerar demanda suficiente para cobrir os seus custos? Aos olhos dos grandes investidores, até essa possibilidade parecia absurda, e eram diversos os elementos que influenciavam nesse ponto de vista. O possível fracasso financeiro das produções tinha, como base, sua escassa abertura social – as portas da economia costumavam se abrir para o que era considerado mais rentável. Na perspectiva questionadora de Anderson durante o capítulo, constituída de acordo a visão do capital, não havia motivos para um filme indiano conquistar um espaço maior ou similar a um hollywoodiano. Não havia público suficientemente interessado e, muito menos, disposto a trocar os impressionantes efeitos especiais de Hollywood por uma produção mais simplória. Além disso, existia a chamada restrição física. Se torna quase impossível agregar grandes audiências em áreas geográficas limitadas, uma barreira, nas palavras do autor, “que só é superada por pequena fração de novos conteúdos” (p. 2).

Diante de tamanhas restrições, a solução encontrada pela indústria do entretenimento foi focar, de forma intensa, na produção dos hits – em outras palavras, produtos instigantes para o público. Grandes sucessos gerados pela combinação conformismo do povo com a forte divulgação midiática e divulgação boca-a-boca daquilo que prende a atenção do público. “A economia movida a hits (…) é produto de uma era em que não havia espaço suficiente para oferecer tudo a todos” (p.2). Músicas “chiclete”, livros aclamados, filmes arrebatadores, que atraem muitas pessoas, são considerados hits. Por não serem tão numerosos, suas vendas, embora em baixo nível, atingem rapidamente volumes consideráveis e bastante rentáveis.

Mas, em meio a este processo, tivemos o desenvolvimento da zona de entretenimento online. Consequentemente, ocorreu o aumento dos mercados que se situam fora do alcance físico (lojas ou empreendimentos existentes exclusivamente na internet, como Netflix, iTunes, Rhapsody, Wal-Mart, entre outras) e estes se tornaram cada vez mais populares e acessíveis. Por existirem apenas no meio digital, possuem características que não se encaixam no que é considerado mercado em massa. São lojas adeptas a uma economia emergente do entretenimento, nos retirando do que o autor se refere como “tirania do mínimo divisor comum” – ou seja, a predominância hits – e oferecendo-nos produtos que não podemos encontrar facilmente nas prateleiras ao redor do mundo. Devido a este fato, o rendimento destas lojas cresce de forma assídua e acelerada; ao aumentar a intensidade de contato do público com produtos desconhecidos, maior é a busca pelos mesmos e a descoberta das mais diferentes e novas áreas de preferência, dando origem ao fenômeno que intitula o texto, a Cauda Longa.

A parte desconhecida dos produtos é maior que a dos hits. Os últimos, mesmo sendo poucos, são vendidos em grande quantidade e acabam por gerar grande renda às lojas. Já os nichos, são muitos. Mesmo que atinjam poucas vendas por pessoa, são capazes de influenciar enormemente a economia das lojas, pois várias produções desconhecidas diferentes (em um número maior que os hits) são compradas em pequena quantidade, criando um feedback cultural positivo.

No capítulo V, “Os novos produtores”, iniciado na página seis, Chris Anderson, baseando-se na expansão da tecnologia ao redor do mundo e na crescente influência desta no cotidiano do público, disserta sobre uma das mais famosas ferramentas da atualidade: a utilização de ferramentas fornecidas pelo próprio desenvolvimento tecnológico para facilitar o progresso social. Anderson se refere a este fato como “democratização das ferramentas de produção”. Não somos mais catalogados como apenas consumidores, mas também como produtores ativos de novas descobertas. Mas qual é o alicerce utilizado para esta mudança? A existência do que denominamos Pro-Am, uma criação da primeira força da Cauda Longa.  Por exemplo, é aumentado, diariamente, o número de amadores nas mais diferentes vertentes daquilo o que a Internet vem a nos oferecer. A partir da descoberta da rede, podemos aprender, por vontade própria e sem fins financeiros, sobre como produzir sites, mantê-los, atrair público às nossas produções e passar a diante nossos conhecimentos. Quanto maior o acesso à Internet, maior a possibilidade de interação com a própria e evolução do “producismo” a partir deste ato. À visão social, isso remete às ações colaborativas – o que move a web nos dias atuais.

Este princípio é presente em sites como a Wikipédia, que funciona a partir da atuação do público em sua constituição (auto-editoração). Apesar do risco que corremos por acessar informações que, em algum momento podem vir a estar com detalhes omitidos ou equivocados, fenômenos como estes, ligados estritamente à existência da Cauda Longa e ao seu constante desenvolvimento, são indispensáveis em estudos e questionamentos sobre o que constitui a rede informativa atual e o público-alvo desta. Amadores não possuem apenas uma enorme parcela na formação e expansão da tecnologia, mas também no engrandecimento econômico atual, que envolve hits e nichos e abriga as mais peculiares preferências.